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Remisson Aniceto

remisson8@yahoo.com.br

Gisele e o padre, conto


Em 2010 padre Santino completou 42 anos de vida e 10 de sacerdócio. Pouco depois da sua ordenação foi designado para assumir a igrejinha do bairro onde nasceu e em pouco tempo havia angariado com o seu carisma a simpatia e a admiração de todos os paroquianos. Sua atuação ia muito além das missas, casamentos e batizados, com os projetos voltados para o abrigo, alimentação, tratamentos médicos, atendimentos psicológicos, desintoxicação, encaminhamento para o trabalho e retorno ao convívio familiar dos moradores de rua.

— Padre Santino é mesmo um homem santo, um enviado de Deus para a nossa comunidade — dizia um dos moradores e assíduo frequentador das suas pregações, apoiado por todos ao redor.

Santino morava na casinha humilde da paróquia, um complemento da igreja, mas um domingo ou outro, após a última missa, dirigia-se para a casa dos pais, onde jantava, ficava sabendo das novidades envolvendo a sua família e amigos e lá passava a noite, voltando na segunda-feira bem cedinho para a igreja.

Na casa dos seus pais moravam os irmãos, Carolina e Fernando. Fernando era muito galhofeiro e namorador. Vivia se metendo em confusões no bairro, brigando por qualquer motivo. Exatamente o oposto de Santino, que desde muito novo mostrara grande interesse pelo estudo da bíblia e pelo auxílio aos mais necessitados. No início os pais relutaram em deixar que ele entrasse para o seminário, até que sucumbiram ao seu desejo. Fernando ainda continuava dizendo que Santino iria desistir, abandonar a batina, que aquilo não era vida pra ele.

— Como um homem pode abrir mão do namoro, das belas mulheres, do sexo, das bebidas, de uma boa farra? Você ainda descobrirá que tomou o caminho errado, meu irmão. Acho que você tem algum segredo muito bem guardado e vou descobrir. Como era mesmo o nome da sua namorada de adolescência, sósia daquela famosa modelo gaúcha? — Fernando perguntava, sarcasticamente.

— Gisele, você sabe muito bem... mas porque esta lembrança, Fernando? Você é quem deve mudar. Deus não aprova o tipo de vida que leva. Pare de beber, de procurar confusão, de enganar as pessoas. Arrume um bom emprego, uma boa mulher para se casar e constituir família. É isto também que os nossos pais sonham pra você.

Apesar da vocação religiosa, Santino já tivera mesmo uma namorada na adolescência, mas que durou pouco tempo, dois anos mais ou menos. A moça parecia gostar dele, mas de repente, sem explicações, terminou o namoro. Alguns anos depois ela casou com um amigo de Santino, que ainda sofria com a separação, pois gostava muito da moça. Este era o principal motivo que fazia os seus pais não aprovarem logo a sua ideia de ser padre, mesmo com a sua religiosidade que, aparentemente, parecia não ter sido abalada com o fim do namoro.

— Você decidiu ser padre para fugir, Santino — dizia Fernando. — Depois de namorar tanto tempo, você ainda ama aquela mulher. Como me explica que só decidiu entrar para o seminário depois que ela casou, quando viu você que as suas esperanças haviam acabado?

Realmente, Santino resolveu seguir sua vocação e foi aceito para os estudos eclesiásticos com 22 anos, ao concluir a faculdade de filosofia. Estudou com afinco por muitos anos, ficando uma década longe da família e dos amigos, parecendo ter deixado de vez para trás as tristes lembranças da juventude.

Acontece que o padre guardava sim, como seu irmão dissera, um segredo. Mas o próprio Santino acreditava que não era nada assim tão absurdo. Ele mantinha na igreja, trancada numa gaveta à direita do altar, uma revista de moda com a Gisele Bündchen na capa. A lindíssima modelo estava de perfil, sem qualquer peça de roupa, com uma perna levemente flexionada e os braços meio cruzados para encobrir suas partes mais íntimas. Gisele representava realmente o melhor padrão feminino de beleza, de silhueta esguia, de volumosos cabelos louros, um encantador porém discreto sorriso, uma mulher perfeita. Estava no auge da sua carreira, famosa no mundo inteiro pelo seu trabalho nas passarelas, no cinema, nas ações sociais. Casada com um famoso esportista americano e mãe de um menino e uma menina, Gisele, apesar de toda a sua fama e riqueza, ao contrário de muitas outras modelos, era admirada por homens e mulheres também pela sua discrição e simpatia. A fama não lhe subira à cabeça. Uma mulher ímpar, como muitos a definiam.

Santino, antes de se recolher para as últimas orações da noite, abria a gaveta, acendia um pequeno abajur, pegava cuidadosamente a revista, suspirava ao olhar a mulher da capa e ia folheando, lendo pela milésima vez a matéria, revendo os belos lugares (Paris, Nova Iorque, Milão, Cingapura, Rio de Janeiro, São Paulo, Londres...) por onde Gisele deixara as marcas da sua passagem. Às vezes o padre perdia-se por longos minutos, com o olhar fixo na foto da modelo e quando “despertava” daquele torpor, fazia o sinal da cruz e devolvia a revista na gaveta e a trancava. Então fazia as suas orações e ia dormir.

E a vida seguia, com Santino celebrando as suas missas de igreja lotada, realizando batizados, casamentos, percorrendo as ruas e praças para ajudar as pessoas, recolhendo donativos, visitando as residências dos amigos paroquianos para celebrar um nascimento ou levar uma palavra de conforto a quem perdia um ente querido.

Mas à noite nunca esquecia de cumprir o seu ritual, verificando se as portas da igreja estavam trancadas antes de abrir a gaveta e pegar com as mãos trêmulas a sua Gisele. Diante dela, esquecia de si, esquecia do mundo, quem sabe esquecia até da igreja.

Numa destas noites em que ele se consumia na sua admiração pela modelo, eis que pensa ouvir uma voz:

— Ela é mesmo linda, não é, padre?

Santino apressa-se em esconder a revista na gaveta e depois olha para todos os cantos, imaginando que fosse o seu irmão o autor da pergunta. “Mas como Fernando teria entrado aqui na igreja a esta hora da noite?”, pensa. Acende as luzes, vasculha todo o interior da nave e não encontra ali outra vivalma. Passa o dia seguinte preocupadíssimo com o ocorrido.

Quando prepara-se para dormir, depois de relutar bastante, abre a gaveta e recolhe a sua amada. Desconfiado, examina minuciosamente o ambiente sagrado com o olhar e abre a revista. Acende o abajur e em poucos segundos está viajando novamente, quando ouve aquela voz que parecia a do seu irmão.

— Padre Santino, não te assustes. Há anos que observo daqui a tua rotina...

Santino, apavorado, ergue os olhos para a imagem do santo no altar-mor, de onde vem a voz que prossegue:

— Confesso-te que nem mesmo um santo consegue resistir à beleza desta mulher, padre.

Santino, ainda estupefato, sem acreditar no que acontece, continua fitando boquiaberto a imagem do santo, que agora já não fala, mas tem o pescoço inclinado e os olhos voltados para a capa da revista.

O padre vira-se, abre a gaveta e num rápido movimento esconde a revista. Quanto se volta na direção do altar, pensa se não foi tudo uma alucinação. A imagem do santo encontra-se agora na posição em que sempre estivera, olhando para o corredor central da igreja e com os braços abertos, como se convidando os fiéis para a missa.